Namorado. Ele é doce. Gentil. Cavalheiro. Não me deixa andar na calçada do lado da rua, tem que me colocar sempre no canto. Me leva pra onde eu quiser, onde eu pedir, onde eu mandar. É prestativo. Está sempre pronto a ajudar quem quer que seja. Me agarra escondido no escritório pela manhã pra me dar bom dia. Me enche de beijos. Me aperta, me cheira. É mecânico, mas tá sempre limpinho. Tem A pegada. Gosta mesmo de mim, dá pra sentir. Pelo olhar, pelas palavras, pelas atitudes. É educado, mas não sabe falar muito bem. Escreve errado. É bom no que faz, é bom em matemática, mas é péssimo no português. Me apóia pra melhorar de vida. Me motiva, me empurra, me anima. Foi por causa dele que estou tirando minha carteira de habilitação, e minha auto-escola já estava paga desde 2002. Agora ele tá insistindo pra que eu me informe sobre financiamento de casa própria pela Caixa. Quer fazer faculdade. Várias coisas. Não faz, mas pensa em. Acha inadmissível ser sustententado pela mulher. Incapaz de fazer corpo mole, sempre correu atrás e conseguiu as coisas. Ele está me fazendo bem. Anda comigo pela rua como se fôssemos um casal de namorados. Ele é casado.
O ex. Está comigo há 12 anos. Foi minha família quando todos da minha família se afastaram. Esteve comigo nos bons e maus momentos, ainda que muitos maus momentos tenham sido provocados por ele. Me mima demais hoje. Já me fez sofrer demais ontem. Nunca teve um trabalho fixo, sempre teve a maioria das contas pagas por mim. Sempre foi praticamente sustentado por mim. Quase uma troca. Eu pago suas contas e vc cozinha pra mim, faz massagem antes de dormir, e prepara meu café da manhã. Não vou mentir, teve lá suas compensações. Mas não valeram. Enfim. Tudo o que eu procuro desesperadamente hoje em um homem, é tudo o que ele nunca foi, e eu nunca mais quero passar por isso. Mentiroso, enrolão, enrolado. Bom coração, inteligente, músico. Preciso dele como um amigo, como um porto seguro, mesmo que ele não me ofereça segurança alguma, pelo contrário. Com ele minha vida só desmorona. Mas há algo que me prende a ele. Como se ele fosse um irmão, hoje. Só em enconstar minha pele na dele, já me sinto em casa, me sinto reconhecida, me sinto em um lugar familiar e íntimo. Foi o grande amor da minha vida, e eu sei que, do seu jeito, fui o dele.
ELE. Ele é... perfeito. Ele é tudo o que eu sempre quis em um homem. Ele é inteligente, é bobo, é infantil, é sério, é centrado, anda de skate e é dentista. Surfista e um pai maravilhoso de um menino de 4 anos. Coleciona carrinhos, gosta de Jiraya, e assumiu uma paternidade só descoberta aos 6 meses de gravidez, de uma ex-namorada. Honrado. De caráter. Íntegro. Toca piano. Fala italiano. Ama a natureza, ama animais, ama trilhas, ama praia, ama música. Engraçado. Curte seriados. Os mesmos que eu. Não entende muito de informática. Me pede ajuda pra tudo. Me defende. Me protege. Briga comigo. É grosso. É rude. É delicado. É gentil. É homem. Nunca o vi. Nunca o ouvi. Cinco anos. São cinco anos que o conheço. Pela internet. Nunca permitiu qualquer outra aproximação. São cinco anos que eu sou apaixonada por ele. São cinco anos que eu imploro por uma chance. E agora, por estar com um homem casado, ele me julga. E me diz coisas horríveis. E, o pior, me diz que eu estava quase conseguindo. Que se apaixonou por mim. Que faltou muito pouco pra que ele tomasse A decisão. De me conhecer. Ele dilacera meu coração. Mas o sentimento é mais forte do que eu. Eu não consigo ficar longe dele.
Eu sou doente.


