Eu ando com medo de me mostrar. Me transformar em letras impressas numa página em branco à minha frente, pra todo mundo ler. Eu tenho um conto guardado na memória, que me persegue, mas eu não o acho. Ele está lá, em determinado momento da minha vida, mas só algumas palavras, na verdade está tudo tão embaçado, são lembranças fragmentadas que eu queria tanto recuperar e não acho o livro, não sei o autor, ninguém conhece o conto pelo nome, e minha vida se perde por aí. Eu deixei meu álbum de infância com o meu pai, quando minha mão saiu esbaforida daquela casa que tantas alegrias e tristezas nos trouxe, e eu procurei pegar tudo o que podia naquele curto espaço de tempo, naquela corrida, mas não, eu não peguei tudo, eu esqueci, ou melhor, eu não esqueci, eu deixei. Eu deixei lá o livro com o meu conto e eu deixei lá o álbum com minhas fotos. E eu nunca os resgatei. Nunca mais. Eu os perdi. E hoje eu os queria tanto, e a todo instante eu lembro. Do álbum e do livro. O livro que eu não sei o nome, e que ninguém conhece. O álbum que está todo na minha mente, e que ninguém pode mais ver. E eu tentei tanto pegar o máximo de coisas. E as coisas que eu achei que não seriam importantes, hoje martelam na minha cabeça. Hoje me desesperam, porque eu queria tanto tê-los. Pensando bem, a minha vida toda foi assim. Querendo ter o que se perdeu. Tentando levar tudo consigo, e nunca perder nada. Desesperada tentando com somente dois braços pegar ao mesmo tempo o máximo de coisas. E chegar sem nada no fim. Talvez seja por aí. Eu queria o meu livro. Eu queria reler aquele conto. E eu queria me ver de novo com 1 ano, fraldão, calcinha cheia de babados, em cima da vitrola da minha avó. Eu queria. Eu não peguei. Eu deixei lá. Pra pegar depois. E eu não consigo resgatar nem um e nem outro. E nem deixar pra trás. Eles estão presos no caminho.
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