quinta-feira, 19 de julho de 2007

E eu cheguei mesmo ao fundo do poço. A al-facinha mais verde do pomar. Eu sequei um motorista de ônibus hoje. Sequei tanto, mas tanto, que ele até me ofereceu chocolate. Isso porque eu estava sentada atrás do cobrador. Mas eu queria mesmo que ele me visse secando. E fiquei muito chateada porque tudo não passou de troca de olhares. Quase que eu deixei meu telefone com o cobrador, pra entregar pra ele. Eu, secando um motorista de ônibus. Cujo nome era Marcelo. Claro que isso nunca entraria no meu currículo. Digo, em meu estado normal. Primeiro, porque motoristas de ônibus, salvo, claro, raríssimas exceções, são muitos safados. Galinhas, mesmo. E segundo porque, fator agravante, de nome Marcelo. Todos os Marcelos, salvo, claro, raríssimas exceções, são muito safados. Galinhas, mesmo. Então, eu estou ficando maluca. Atirando pra todos os lados, matando cachorro a grito. Se ele quisesse me comer ali mesmo, no banco do motorista, eu deixava. Mas espere, há coisas a meu favor. Também não é assim, sem motivo, que eu sequei o homem. Primeiro: ele tinha cara de mau. Só isso já é um chamariz pra mim. Adoro homens com cara de mau e coração de menino. Segundo: ele era doce. Como eu sei? Ele ficou simplesmente o tempo todo conversando e dando toda a atenção do mundo a uma idosa que sentou naquele banco bem do lado do motorista. Terceiro: o sorriso dele era lindo. Quarto: ele dirige muito. Quinto: olhar penetrante. E por aí vai. Não era só um motorista de ônibus. Era um motorista de ônibus, assim, de boca cheia. Mas não deu em nada, e eu to meio triste. Eu queria que rolasse ao menos uma troca de telefones, mas nem isso. Mas ao menos agora eu estou mais aberta às possibilidades. Ninguém pode dizer que eu sou exigente. Eu dei mole, mas muito mole, para um motorista de ônibus.

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